Diocese de Santarém

Pe Ricardo Pinto, Homilia da Missa Nova

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Enviado por Diocese em 12/07/10 - 22:35

Sábado, 10 de Julho de 2010
XV Domingo do Tempo Comum – Ano C
 
 
Caríssimos sacerdotes, diáconos e seminaristas,
Queridos religiosos e religiosas,
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal do Entroncamento e demais autoridades civis e militares aqui presentes,
E vós, queridos irmãos e amigos,
1. Hoje, nesta hora singular, eu posso exclamar diante de todos: Oh gente da minha terra, agora é que eu percebi que esta fé e esta alegria que trago foram de vós que as recebi! Aqui estão as minhas raízes, as minhas origens. Aqui começou a minha história…
2. Era uma vez um rapazito, que se sentava nos primeiros bancos da Igreja, quando ainda os pés não tocavam o chão. Era um rapazito, a quem tantas vezes perguntavam se não queria ser padre. Cresceu, deu passos muito concretos e foi construindo uma história de amor que começou quando um dia se deixou vencer permitindo que Deus lhe tocasse e lhe moldasse o coração… Esse rapazito está agora diante de vós como sacerdote e traz nas suas mãos um "tesouro em vasos de barro, para que se veja que este extraordinário poder é de Deus e não é nosso." (2 Cor 4, 7) Realmente, foi Deus que realizou em mim as suas maravilhas (cf. Lc 1, 49) e me trouxe até este momento há muito sonhado por todos. Aqui e agora, pela primeira vez nesta comunidade que me viu nascer e crescer, o Senhor faz-se presente, por meio de mim, dando-nos o seu próprio corpo e sangue em alimento, neste grande tesouro que é a Eucaristia. Isto acontece, não por mérito algum da minha parte, mas porque o Senhor quer mostrar o amor que tem ao seu povo, que tem a cada um de vós, e que continua a escutar as preces daqueles que O invocam.


3. É deste amor que a Palavra de Deus nos fala nas leituras que acabámos de escutar. A liturgia deste Domingo procura definir o caminho para encontrar a vida eterna. É no amor a Deus e aos outros que encontramos esta vida na sua plenitude.
4. A primeira leitura, do livro do Deuteronómio, reflecte, sobretudo, sobre a questão do amor a Deus. Convida cada um de nós a fazer de Deus o centro da sua vida e a amá-Lo de todo o coração. E isto só pode acontecer na escuta da sua voz no íntimo do coração e percorrendo o caminho dos seus mandamentos. Não se trata de crer cegamente na lei mas de compreender o sentido fundamental da nossa condição de criaturas limitadas e finitas. Sabemos que a força vem da vida de Cristo que nos habita, da sua Palavra que está viva em nós.
Mas afinal, onde está a Palavra de Deus? Responde Moisés: «Esta Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração» (Dt 30, 14). Está, queridos irmãos, à nossa volta, falando nos acontecimentos e nas pessoas que fazem parte da nossa vida; está tantas vezes nos nossos lábios e, sobretudo, no nosso coração, mesmo quando adormecida. Mas quantas vezes, a Palavra de Deus está na nossa boca e acaba por ficar apenas aí? Estando no nosso coração, pode acabar por estar longe dele. Esta palavra pode ser evangelho «ouvido», mas não «escutado», proclamado com a boca, negado tantas vezes com a vida, entendido na cabeça mas não aceite no coração. «Esta palavra está perto de ti, está na tua boca e no teu coração, para que a possas pôr em prática». Os tempos de hoje exigem de nós, cristãos, uma atenção e uma abertura a esta Palavra que, na nossa história, vai revelando a acção de Deus, pedindo-nos o compromisso de escutá-la e vivê-la de modo radical e comprometido.
5. Diante deste grande desafio, precisamos de tomar consciência de que só por nós, fechados no nosso egoísmo e na nossa auto-suficiência, não somos capazes de percorrer este caminho. É isto que São Paulo nos mostra na segunda leitura ao apresentar-nos um hino que propõe Cristo como a referência fundamental, como o centro à volta do qual se constrói a história e a vida de cada crente. Se Cristo é o centro, convém escutá-Lo atentamente e fazer do amor a Deus e aos outros uma exigência fundamental da nossa caminhada.
Em Cristo, tudo foi criado e é por Ele que tudo chega à perfeição. Não são só as coisas «visíveis» que falam da beleza de Deus. Também, e muito mais, as «invisíveis». E a maior de todas, que nasce do interior do coração e se revela nas obras da misericórdia, é o amor. Amar como Deus ama, é a perfeição absoluta.
6. Esta centralidade de Cristo nas nossas vidas leva-nos a meditar na importância do que Ele diz no Evangelho de hoje. Jesus surge muitas vezes como um contador de histórias. As histórias podem ter uma acção curativa pois tantas vezes a história que escutamos é a nossa própria história. Jesus, hoje, conta a Parábola do Bom Samaritano: "um homem" foi assaltado por salteadores e deixado caído na berma da estrada. Trata-se, portanto, de "um homem" ferido, abandonado, necessitado de ajuda. Pela estrada passaram sucessivamente um sacerdote e um levita. Ambos passaram adiante: ou o medo de enfrentar a mesma sorte, ou as preocupações com a pureza que a lei exigia que os impedia de contactar com um cadáver, ou a pressa, ou a indiferença diante do sofrimento alheio, impede-os de parar. Tanto o sacerdote como o levita vêem o pobre homem a partir de si mesmos. E é porque vêem assim, que passam ao lado. Não têm qualquer sentimento de misericórdia por aquele homem. Eles sabem tudo sobre Deus, lidam diariamente com Deus mas, afinal, não sabem nada de Deus, pois não sabem nada de amor.
Pela estrada passou, finalmente, um samaritano. Este não encontra nenhuma barreira para dar ajuda desinteressada ao desconhecido, ali estendido e ferido, necessitado da ajuda de alguém que passasse por aquele caminho. Somente o samaritano se compadece daquele homem anónimo e se entrega com infinito amor a defender a vida que está ameaçada e enfraquecida. O samaritano não vê primeiro, para só depois se aproximar. Ao contrário, ele aproxima-se primeiro, para depois começar a ver. É precisamente porque se aproxima, que vê e se enche de compaixão. Este homem percebeu as palavras do coração, aquelas que antes de serem ditas pela boca já foram ultrapassadas pela coragem de ver, pela ousadia de se aproximar, pela grandeza de se compadecer, pela firmeza de curar. Não são os mandamentos que salvam, nem as doutrinas que libertam. Só os gestos em favor do homem agradam verdadeiramente a Deus. Só quem se dispõe a ouvir o coração pode vencer a indiferença que tudo justifica ou a pressa que tudo relativiza.
Quando nos gastamos a procurar "quem é o meu próximo?", quase sempre estamos a justificarmo-nos pelo pouco que fazemos diante do sofrimento visível do outro. O segredo está no "ver" e não ignorar. Fazer da dor do outro a minha própria dor, acreditar que o mais pequeno gesto ganha uma dimensão de milagre, que nenhuma viagem é mais urgente do que parar para acudir. Podiam ser "íntimos" de Deus e do culto, o sacerdote e o funcionário do templo que passaram, mas eram pobres de humanidade, eram pobres de amor. Desviaram o olhar. O samaritano não fez tudo sozinho. A estalagem foi também casa de cura e salvação, e o homem caído e abandonado reencontrou a dignidade. Nesta parábola Deus nunca é nomeado, mas os padres da Igreja, desde cedo, viram no samaritano o próprio Senhor Jesus e na estalagem a Igreja.
A parábola é tudo, menos um jogo de palavras bonitas. É algo mais que uma peça literária da antiguidade. É uma constante interpelação para os nossos tempos. A parábola do Bom Samaritano explica-nos o amor de Jesus. Caídos à beira do caminho, quem nos socorre? Aquele que desceu do Céu e encarnou. Viu a nossa miséria, «encheu-se de compaixão», aproximou-se para nos curar. O seu coração trouxe-nos «azeite e vinho», a unção do Baptismo e o sangue da Eucaristia. Levou-nos à Igreja, entregou-nos ao seu cuidado e «quando voltar», no fim dos tempos, iremos com Ele para a Casa do Pai.
7. Queridos irmãos e amigos, esta é uma história, uma aventura que não tem fim e que espera de nós uma resposta concreta ao desafio de Jesus: «Vai e faz o mesmo» (Lc 10, 37). Escutemo-Lo. Ele é o bom samaritano enviado por Deus à nossa humanidade ferida por tantos ódios e injustiças. Rendamo-nos ao seu amor.
Permiti que vos peça que leveis esta Palavra aos nossos irmãos que estão doentes e andam tristes e que padecem no seu corpo a dor e o sofrimento, para que, em Jesus, encontrem o ânimo e a coragem de abraçar a cruz.
E todos nós aqui presentes, coloquemos agora o nosso coração sobre este altar, porque esta é a hora em que o Senhor está connosco, tal como na manhã de Páscoa. Não faltemos ao banquete do sangue derramado: comamos do seu pão, bebamos do seu cálice divino.
Peçamos ao Senhor que a luz da sua palavra e do seu amor não se apague em nós no meio das confusões deste tempo, mas que se torne cada vez mais forte e mais resplendorosa, para que sejamos as sentinelas da aurora que anunciam a chegada do sol, que é Cristo ressuscitado! Ámen!


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